10. CULTURA 5.6.13

1. O Grande Gatsby
2. A EUROPA CONTRA HOLLYWOOD
3. LIVROS - O MANO MALCOLM
4. EM CARTAZ  MSICA - A OUTRA BANDA DE THOM YORKE
5. EM CARTAZ  LIVROS - NA ERA DO ROCK
6. EM CARTAZ  CINEMA - UMA PIADA QUE CANSOU
7. EM CARTAZ  SHOW - DIVERSIDADE DO JAZZ
8. EM CARTAZ  QUADRINHOS - O TRAO DA NOVA GERAO DE DESENHISTAS
9. EM CARTAZ  AGENDA - VICE/CULTURA INGLESA FESTIVAl/GODARD

1. O Grande Gatsby
O sucesso do filme "O Grande Gatsby" no se explica apenas pelo marketing do glamour.  resultado da atualidade do personagem e da exuberncia da nova verso de sua histria 
Ivan Claudio

FESTA E TRAGDIA - Leonardo DiCaprio e Carey Mulligan: amor separado pelo dinheiro

Desde a sua estreia nos EUA, h um ms, o filme O Grande Gatsby, que chega ao Brasil na sexta-feira 7, tornou-se uma mania mundial. A gatsbymania definiu um estilo. Joias, modelitos e at carros raros, fabricados nos anos 1920, poca em que se passa a histria, ganharam as vitrines e leiles a preos estratosfricos. A joalheria Tiffany, por exemplo, lanou uma linha exclusiva cujo objeto de desejo  a headband (espcie de tiara) da personagem de Daisy Buchanan (Carey Mulligan), o grande amor de Jay Gatsby: incrustada de diamantes e prolas, custa US$ 200 mil. A mais antiga loja masculina do pas, a Brooks Brothers, que abastecia o elegante guarda-roupa do autor do livro, F. Scott Fitzgerald, criou especialmente para a produo uma coleo de 500 peas e as mantm em catlogo para quem quiser se vestir ao estilo da era do jazz  incluindo o terno rosa do protagonista. Totalmente conservado, um conversvel Duesenberg, a Ferrari do passado, foi arrematado recentemente por US$ 4,5 milhes. O fetiche representado por esses itens de consumo de luxo poderia explicar o sucesso do filme, j que  do mundo dos ricos que trata a histria  mas isso ainda  pouco para dar conta do fenmeno.

Atribuir a gatsbymania ao fato de a obra ser estrelada por Leonardo DiCaprio tambm no  o suficiente: desde Titanic, de 1997, nenhum de seus filmes representou um estouro nas bilheterias. A resposta estaria, ento, na adaptao do livro de Fitzgerald feita pelo diretor australiano Baz Luhrmann, cujo estilo extravagante ecoa a prpria trama centrada nos anos loucos. Passado durante a lei seca, o longa mostra o mundo de excessos de uma elite perdulria e hedonista, encabeada por Gatsby, um self made man de origem duvidosa (tudo indica que  um gngster) a quem a riqueza existe para ser despendida. Ele promove festas em seu castelo em Long Island, nos arredores de Nova York, para milhares de pessoas que nem sequer conhece  logo se ficar sabendo que o faz para atrair Daisy, a mulher que perdeu para um milionrio mulherengo, Tom Buchanan (Joel Edgerton). Embaladas por rap e ritmos pop atuais, fundidos ao eletrizante swing, as festas mais parecem raves de msica eletrnica  o que no deixa de ser uma atualizao pertinente para o ar do tempo, anterior ao crack de 1929.

Essas liberdades, obviamente, no agradaram a todos. Autor da apresentao de uma das cinco novas tradues do livro lanadas no Brasil (a da Gerao Editorial), o escritor Ruy Castro se inclui no grupo ranzinza. Acho que o cinema devia deixar Gatsby em paz, diz ele. Para Castro, se existe uma razo para a mania, ela est no livro e no seu autor: Ele fascina pelo carter (ou a falta dele) nos personagens, pela escrita bordada e minuciosa e pelo mergulho no mundo dos ricos, coisa rara na literatura. Leitura obrigatria no ensino mdio nos EUA, o romance (que ao ser lanado em 1925 vendeu apenas 25 mil exemplares) est h mais de 400 semanas entre os best-sellers e, nos ltimos meses, saltou para as primeiras posies. Desde janeiro, as livrarias americanas receberam 900 mil exemplares do romance, o dobro do que normalmente  vendido por ano. Ao comentar a fraca recepo de sua obra na poca, Fitzgerald afirmou: Um autor deve escrever para os jovens de sua gerao, para os crticos da prxima e para os professores das geraes futuras. Estava completamente certo.


2. A EUROPA CONTRA HOLLYWOOD
No Velho Mundo, os maiores cineastas se unem em defesa da produo local contra o avano dos blockbusters americanos. Repete-se assim uma novela conhecida dos brasileiros
por Ivan Claudio

REAO FRANCESA - Fila em cinema parisiense: governo quer garantir espao para os filmes locais

Nas ltimas semanas teve incio na Europa um movimento que a classe cinematogrfica brasileira conhece bem. Consagrados diretores da Frana, Itlia, Espanha, Alemanha e Inglaterra, apenas para ficar nos pases com uma produo mais forte, assinaram uma petio que circula na internet pressionando o Parlamento Europeu a votar contra a incluso do audiovisual na rodada de negociaes entre os EUA e o Velho Continente. Alguns deles, como o espanhol Pedro Almodvar ou o austraco Michael Haneke, so notrios ganhadores do Oscar. Eles entendem que se um tratado de livre comrcio como o planejado entre as duas economias incluir o cinema e a televiso poder acarretar a derrocada da atividade em seus respectivos pases. Diante dos EUA, cuja indstria de entretenimento  a segunda maior fonte de exportaes do pas, a liberalizao do setor audiovisual e cinematogrfico levar ao desmantelamento do que vem protegendo, promovendo e ajudando a desenvolver a cultura europeia, l-se no manifesto intitulado A exceo cultural no  negocivel.  o cerco da Europa ao avano de Hollywood.

Exceo cultural  um termo que os europeus usam para qualificar a conhecida reserva de mercado. Ou seja: o que se reivindica  a manuteno de leis protecionistas que garantam subsdios sem os quais, de acordo com os cineastas, seria impossvel manter longe do vermelho o seu trabalho. Essa reao da classe cinematogrfica aconteceu aps pronunciamento do comissrio de comrcio da Unio Europeia, Karel de Gucht, acenando para a incluso da atividade cultural na pauta de discusses. A presso, que conta com o apoio de artistas americanos como David Lynch, foi ouvida. Na Alemanha, o rgo estatal de financiamento do cinema soltou um comunicado alertando para a ameaa de as superprodues dos EUA ocuparem as salas, varrendo da programao os ttulos nacionais.

No encerramento do Festival de Cannes, na semana passada, a ministra da Cultura francesa, Aurlie Filippetti, declarou que a exceo cultural  uma linha vermelha que no ser negociada por ns. O Parlamento europeu no teve sada: na quinta-feira 23, votou contra. Tal queda de braos se d quando Hollywood teve uma baixa de 1% no faturamento nos pases da zona do Euro, nica regio onde isso aconteceu em 2012. Cinema no  fast-food e no deve ser regido pelas simples leis do mercado, diz Walter Salles, signatrio da petio.


3. LIVROS - O MANO MALCOLM
Ladro, traficante, jogador e presidirio. Biografia de Malcolm X revela que ele foi um marginal antes de se tornar smbolo da luta pela igualdade racial nos EUA
Michel Alecrim

CAPA DO LIVRO - Recm- lanado: um rebelde sem conscincia poltica que se tornou dolo dos rappers atuais

Ao nascer nos EUA, em 1925, deram-lhe o nome de Malcolm Little. Na escola, ainda quando criana, veio o apelido de Harpia. Adolescente, virou delinquente, garoto de programa homossexual e ganhou a o codinome de Detroit Red  o que lustrou sua vaidade, j que possua mesmo os cabelos naturalmente avermelhados. Sim, ele era um moo bonito, e meio que gal da marginalidade. Transformou-se em danarino de boate e passou a ser chamado de Jack Carlton. A cadeia era o caminho previsvel nessa jornada, e atrs das grades ele se fez fera em seu temperamento agressivo. Conquistou o respeito da malandragem como o incendirio Sat  o mnimo que fazia era blasfemar noite e dia. De volta  liberdade, dando-se conta de que a discriminao racial e social que sofria por ser negro no era uma questo pessoal do mundo inteiro contra ele, e sim uma poltica do Estado americano, o nosso personagem foi se tornando o famoso Malcolm X, um dos principais lderes na luta pelos direitos civis nos EUA, embora nunca o seu iderio viesse a ganhar a dimenso da conscincia poltica. Foi assassinado em 1965, aos 40 anos, e chamava-se ento Malik El-Shabazz em decorrncia de sua converso ao islamismo. Todas essas fases so retratadas pelo historiador americano Manning Marable no livro Malcolm X  Uma Vida de Reinvenes (Companhia das Letras), obra que lhe valeu o prmio Pulitzer de 2012.
Faces diversas - Fotos de Malcolm X feitas pela polcia em sua  juventude, quando ele desafiava as leis como marginal 

Malcolm cresceu numa Amrica do Norte incendiada pelos conflitos raciais, contava quatro anos quando a sua casa foi explodida pela organizao de ultradireita Ku Klux Klan e, dois anos depois, seu pai morreu num misterioso acidente de bonde. Passou fome, a sua me foi internada num manicmio e no demorou muito para que Malcolm comeasse a roubar alimento. Conseguiu emprego na companhia ferroviria da linha Boston  Nova York e cedo lhe mostraram que ganharia mais se traficasse maconha. Nenhum pobre enjeitado nasce lder de seus iguais, e por isso  comum espelhar-se em quem manda. Tambm Malcolm nessa poca negou a raa: ele alisou o cabelo. Completara 15 anos quando se bandeou para a regio barra-pesada do Harlem, em Nova York, j ento uma referncia na luta dos negros. Na condio de Detroit Red, tomava parte em prostituio, venda de maconha, roubos ocasionais, escreve Marable. Acabou preso em 1944 por porte ilegal de arma e cumpriu pena de oito anos na penitenciria de Charlestown.

O rebelde Malcolm jamais foi um rebelde primitivo na acepo do historiador Eric Hobsbawm, para quem o gene da conscincia poltica pode estar no comportamento marginal.  certo, porm, que foi na priso que ele leu biografias de inmeros lderes, entre elas a de Mahatma Gandhi, e sua compreenso das questes sociais se ampliou. Ao sair do crcere converteu-se ao islamismo, e o sobrenome herdado dos ex-proprietrios brancos escravocratas no mais lhe cabia  virou X, identidade que muitos adotavam enquanto no descobriam suas origens. Malcolm se mostrou nada radical no campo religioso, j no era o mano a resolver  bala as discordncias. Propunha-se a ouvir e a falar. Aos seus comcios compareciam milhares de pessoas, inclusive de outras religies, e o lder conclamava os negros  revoluo sem sangue. Mais como Malcolm X, muito menos como marginal, ele segue no mundo de hoje sendo um lder, por exemplo, para os jovens rappers  segundo Marable, um representante da esperana e da dignidade humanas.


4. EM CARTAZ  MSICA - A OUTRA BANDA DE THOM YORKE
por Ivan Claudio

A decadncia da indstria fonogrfica libertou os msicos na criao de trabalhos sem tanta preocupao com o mercado, caso do CD Amok, da banda Atoms for Peace. O quinteto rene pesos pesados do rock, como Thom Yorke (Radiohead), Flea (Red Hot Chili Peppers), Nigel Godrich (produtor dos mais requisitados), Joey Waronker (R.E.M.) e Mauro Refosco (percussionista brasileiro). Esse supergrupo foi criado para os shows do disco solo de Yorke, Eraser, e se manteve em atividade. As nove faixas de Amok foram gravadas em trs dias e ps-produzidas com fantsticos recursos eletrnicos.  como se o rock experimental do Radiohead fosse injetado de uma nova energia.

CD.jpg 

+5 Super grupos
Them Crooked Vultures (foto)
 Trio integrado por Josh Homme, John Paul Jones e David Grohl que lanou disco de hard rock

Emerson, Lake & Palmer
 Todos os seus integrantes vieram de bandas de rock progressivo e mantiveram o estilo

Crosby, Stills, Nash & Young 
 Fizeram parte do The Byrds, Buffalo Springfield e The Hollies. A tradio  o country rock

Traveling Wilburys 
 Essa banda formada nos anos 1990 reuniu Bob Dylan, George Harrison, Tom Petty, Roy Orbison e Jeff Lynne

The Good, The Bad & The Queen 
 Esse  um dos cinco projetos paralelos do guitarrista Damon Albarn, do Blur


5. EM CARTAZ  LIVROS - NA ERA DO ROCK
por Ivan Claudio

No livro pstumo Tempos Fraturados (Companhia das Letras), o historiador britnico Eric Hobsbawn (1917-2012), autor de A Era das Revolues, se ocupa da relao entre a arte e a poltica. So 22 ensaios, resenhas e conferncias que tratam da art nouveau aos faroestes, numa viso crtica em relao aos caminhos da cultura dos tempos atuais. Formado no marxismo, em Os Intelectuais: Papel, Funo e Paradoxo ele lamenta que se tornou difcil a um pensador fazer frente, por exemplo, a um astro como Bono, do U2.


6. EM CARTAZ  CINEMA - UMA PIADA QUE CANSOU
por Ivan Claudio

Com Se Beber, No Case  Parte III encerra-se uma milionria franquia que no conseguiu manter a boa receita inicial. A histria dos amigos (Bradley Cooper, Ed Helms, Zach Galifianakis e Justin Bartha) que acordam sem saber o que fizeram depois de uma noite de bebedeira inovou o gnero filme de turma. Desandou, porm, para a piada de mau gosto e agora mostra que no tinha mais para onde ir. 
 A sada, no muito boa, foi promover o personagem de Ken Jeong a protagonista, atraindo a vingana de um gngster e envolvendo os malucos americanos numa tola enrascada.


7. EM CARTAZ  SHOW - DIVERSIDADE DO JAZZ
por Ivan Claudio
Mesmo nos momentos radicais do bebop e do cool, o jazz sempre foi uma manifestao da diversidade. Essa caracterstica fica patente na seleo de artistas do BMW Jazz Festival (So Paulo, HSBC Brasil, no dia 6/6, e Rio de Janeiro, Vivo Rio, 8/6). Entre as sete atraes, h espao para o sotaque latino da baixista Esperanza Spalding, a vanguarda do pianista Brad Mehldau e o postbop do quarteto James Farm, novo grupo do saxofonista Joshua Redman. Rompendo as fronteiras do gnero, o guitarrista Pat Metheny foi contemplado com uma noite especial.


8. EM CARTAZ  QUADRINHOS - O TRAO DA NOVA GERAO DE DESENHISTAS
por Ivan Claudio
Passados aproximadamente 100 anos do lanamento de Tico-Tico, a primeira HQ brasileira, em 1905, o Pas vive um boom de jovens criadores de histrias em quadrinhos que tm em comum a inquietao e a liberdade criativa prprias do gnero. S neste ms foram lanadas trs revistas nessa linha de narrativa contempornea. A Libre!  resultado de um projeto coletivo com nomes de vanguarda e est sendo comercializada nas principais capitais. As outras duas, Intrusa e Tension de la Passion, so do selo Belelu, exclusivo de humor grfico que busca o mercado externo com Tension, traduzida para o ingls, o francs e o espanhol. A Intrusa brinca com as populares sries de romances como Sabrina e Bianca.


9. EM CARTAZ  AGENDA - VICE/CULTURA INGLESA FESTIVAl/GODARD
Conhea os destaques da semana
por Ivan Claudio

VICE 
(HBO, a partir de 5/6)
Srie em dez episdios que busca avanar na cobertura de temas polmicos. Os assassinatos polticos nas Filipinas ocupam um programa

CULTURA INGLESA 
(So Paulo, at 30/6)
Em sua 17a edio, o evento traz peas como The Static, de temtica jovem, e shows como o da banda The Magic Numbers

GODARD
(Oi Futuro, Rio de Janeiro, at 7/7)
A mostra Expo (r) Godard rene projees e totens interativos sobre a obra do cineasta Jean-Luc Godard
